…no vagar da agitação destes dias efémeros, recupero da memória a lembrança dos tempos pretéritos em que as festividades religiosas tinham uma outra relevância e marcavam decisivamente a corrente dos dias. ah! o frenezim, a ansiedade, o desassossego que se instalava nas semanas que antecediam as «festas de agosto». e a agitação crescia, excitava com o passar dos dias, que demoravam, que eram infindáveis, entre brincadeiras pueris nos escassos caminhos rústicos, entre a modorra das tardes solarengas passadas na berma de um qualquer tanque de água de rega, barrenta, revolta por mergulhos hesitantes.
e, algumas semanas antes das «festas», a viagem monótona de autocarro, que nos conduzia, a mim e à mãe, à cidade, como que em peregrinação anual. o funchal que nesse tempo era tão distante, inacessível. ah! a cidade! e o autocarro estacava na paragem e à nossa frente a porta abria-se, com vagar, lenta, como o correr desses dias, como se não tivesse pressa de zarpar. e eu, agitado, galgava num rompante os enormes degraus, percorria o corredor e perscrutava os bancos disponíveis, para sentar, a mim e à mãe. e ela, sempre, advertia, por uma insondável razão, que os bancos, esses, tinham de ser os do meio, nem muito à frente, nem muito a trás. eu obediente concordava, porque no meio está a virtude. entrementes, o cobrador de bilhetes, com voz rústica e tosca, gritava do fundo do autocarro: - «siga!». um solavanco seco recuperava-nos do torpor, o autocarro retomava a viagem. sentado junto à janela, com olhos curiosos, observava a lenta película que o vidro do meu assento me projectava. a estrada íngreme e sinuosa, que serpenteia a difícil montanha e os vales do povoado. as casas, as vinhas, os poios cultivados, aqui e além um homem que transporta, às costas, um incómodo fardo de lenha. o filme desliza, moroso, e as imagens transfiguram-se. outras casas, muitas casas, coloridas, alcandoradas numa breve elevação que avança do mar. e, nisto, avistávamos um vasto manto de telhados, entrecortado pelas vielas estreitas, que abraçam o mar azul, imenso, da baía dos lobos. e o autocarro parava. agora, o vidro da minha janela contempla-me uma tela harmoniosa, com uma celeste amalgama de casas, barcos, marujos, crianças. a algazarra das vozes que saem e das vozes que entram no autocarro interrompem-me a visão mirífica. à vez, uma torrente contínua de homens, de mulheres, de crianças, com fácies de traços tangerinos, o olhar vazio e a tez queimada, precipita-se no habitáculo do autocarro, à cata dos poucos assentos ainda disponíveis. de novo a voz rústica e tosca ordenava: – «siga!«; e o autocarro seguia viagem, deixando para traz o odor inconfundível do peixe que secava no calhau. a zoada pastosa e molenga, a lengalenga quase imperceptível, amainava e os passageiros continham as palavras e entravam numa sonolência passageira. à janela, retomo o filme melancólico e vagaroso, com o mar ao fundo, infinito.
depois, era a cidade. o autocarro percorria as ruas do funchal, reconhecendo-lhes o sentido, a direcção. nas ruas, os passeios de calçada portuguesa, amparavam o andar errante dos transeuntes, indiferentes de mim, de todos nós que agora chegávamos à cidade. o motorista conduzia o autocarro para a paragem em frente ao comando militar, na imensa avenida do mar, rendilhada de exuberantes árvores e de palmeiras. e pela última vez, a voz rústica e tosca, brandia, com voz de comando: – «porta de ‘traz!». as portas obedeciam e escancaravam-se. nas entranhas daquele imenso monstro o povoléu revolvia-se e, numa espécie de incontido vómito, a horrenda máquina regurgitava os passageiros lançando-os no alvoroço urbano.
estacada no passeio a mãe recompunha-se, ajeitava-me a camisa, segurava firme a minha mão, e mergulhavamos na turba. num passo estugado percorríamos as ruas da cidade. sem delongas visitávamos as costumeiras lojas. as mesmas montras, as mesmas pessoas que nos atendiam, quase reconhecia os rostos dos clientes, desde que, haviam já vários meses, ali tínhamos estado. a empregada do balcão, com um olhar desdenhoso, perguntava-nos, com indiferença, o que queríamos. e a mãe, insegura da altivez urbana, com a voz a se lhe embargar, murmurava: – «quero comprar uma camisa e umas calças para esta criança!», e eu encolerizava-me, que já não era criança, mas continha a minha revolta. a empregada olhava-me de soslaio, mirava-me de cima a baixo, sem esboçar a mínimo sentimento ou emoção, virava-nos as costas, apeava-se num escadote e punha-se à cata, por entre pilhas multiformes de tecidos e de roupas, as calças e a camisa, que depois nos atirava ao balcão, dizendo: – «veja se isto serve?». servia, certamente. – «é mesmo isto!», ripostava a mãe. e na sapataria o mesmo apático diálogo. e, assim, sem a minha permissão, sem o meu consentimento, indiferente de mim, fora decidido e comprado a roupa que eu haveria de estrear nas «festas de agosto». e era assim que, todos os anos, nestas festas, estreava sempre uma muda inteira de roupa, nova. e era com essa roupa envergada no meu corpo franzino que, no dia da «festa», descia a ladeira que nos conduzia à igreja, renovado, vaidoso, elegante, exibindo a minha fugaz e efémera glória. e era com essa roupa nova que, de aqui em diante, iria todos os domingos à missa; e era com ela que iria aos escassos e fortuitos acontecimentos especiais. – «zela essa roupa! óh rapaz! tem modos e não estragues a roupa da missa.», advertia a mãe. eu zelava-a com todo o cuidado, como quem guarda um tesouro precioso. tinha que durar pelo menos um ano, pois apenas no ano seguinte regressaria ao funchal, com a mãe, no autocarro molengão, alguns dias antes das «festas de agosto», para comprar a roupa nova… (continua…)